
Levanto a cortina blecaute da janela: um mar branco de nuvens me cega. Aos poucos, os olhos se acostumam e consigo reconhecer o início e o fim de cada nuvem, como se fossem ondas individuais. O olhar se perde no horizonte: à minha frente, Nova York me espera.
Eu tinha reservado esta viagem para o Natal anterior, com o entusiasmo de compartilhar a atmosfera natalina da Big Apple com a minha ex histórica. Infelizmente, devido a um atraso com o visto dela, fui obrigado a adiar a viagem em um ano para este Natal. Pena que em abril a gente terminou.
Por muitos meses olhei para as duas passagens na minha mesa, indeciso sobre o que fazer. Cancelar tudo e encontrar um destino diferente? Convidar outra garota? Partir sozinho?
As semanas passavam inexoráveis como a areia na ampulheta, e os planos continuavam mudando de forma, um pouco como as nuvens que estou sobrevoando. Teria adorado ir com a Piccolina, mas ela vai passar o Natal com a família. Tinha pensado em levar a Ninfetta, já imaginando os seus lábios carnudos no meu pau e os seus carinhos ternos à sombra da Estátua da Liberdade, mas ela fugiu com um emir (literalmente!). Tinha feito um meio convite à DonnaGentile, mulher de grande charme e simpatia, mas os seus trinta e dois anos dobraram o seu mindset de formas não naturais como a colher de Matrix (ou seja: não me deu porque “quer entender se estou falando sério”. E qualquer interesse desaparece quando tentam me manipular com sexo). No fim, decidi partir sozinho, focar em mim mesmo e me deixar livre para encontrar alguém lá. Depois, quando eu for para Miami, talvez a SexySherlock me encontre, a mulher mais smart que já conheci (e com um corpo de dar inveja).

Eu diria que esta viagem sozinho é a ocasião perfeita para uma reflexão. Ouço nos fones Nuvole Bianche de Einaudi e admito uma verdade que preferiria negar: quem sabe quando sentirei o Amor de novo!
Não falo do sentimento de amor em si: faz parte do meu jeito de ser, com as garotas que saio (especialmente a Piccolina), com os sócios e funcionários, com os amigos. Eu sou puro amor, vocês sabem. O Magnífico te lovva!
Refiro-me ao Amor com “A” maiúsculo, aquele totalizante, aquele que te tira o fôlego… aquele que senti com a minha ex histórica. Escrevo sobre isso agora, antes que o tempo faça as memórias desbotarem, velando com uma pátina aquelas cores furiosamente vibrantes, aquela lava fervendo que corria dentro de mim, aquele passar contínuo entre a asfixia e o suspiro profundo.
Se és homem (e não te chamas Giulio), podes pular este post: vai ser tremendamente meloso… a gente se vê na próxima história de sacanagem.
Se és mulher (e não te chamas Lella), mergulha neste maelstrom de emoções… talvez, na próxima vez que leres as minhas palavras duras e desencantadas, sentirás o eco moribundo de uma voz romântica demais.
A pancada aos dezasseis anos e o fogo de palha
Aos 16 anos, como todo mundo, levei meu primeiro fora (Elena). Dali algo mudou em mim, eu disse para mim mesmo:
O amor que inflama de imediato é fogo de palha: arde forte, majestoso e acaba logo. Talvez o amor correto seja mais parecido com a brasa de uma lareira: lento, moderado, persistente.
Essa ideia me manteve longe do Amor por grande parte da minha vida. Passei dos dezessete aos trinta e sete anos com a mesma pessoa, que depois se tornou minha esposa. Vinte anos confortáveis, com uma pessoa a quem quis um bem infinito, mas com quem nunca me deixei levar de verdade. Eu destruía cada momento de romantismo com piadinhas.
O autocarro e o all-in aos trinta e sete anos
Então, aos trinta e sete anos, vejo um ônibus vindo na minha direção e penso.
“Tenho tudo o que as pessoas desejam: uma história sólida e séria, serena e respeitosa, uma vida confortável, saúde, afeto e amigos. Tenho a vida que as avós recomendam aos netos. Mas se este ônibus me atropelasse agora, eu morreria sentindo que nunca vivi.”
Falta-me o ar. Desvio no último segundo.
Decido, com coragem, me despedir da minha esposa e começar a viver. O amor, ainda, não é uma opção: afinal, como poderia me faltar algo que nunca conheci?
Eu me divirto. Então, de repente, aquele fdp sádico do Cupido atira sua flecha.
Talvez a culpa seja do Pietro, meu coach na época, que — ao me descobrir travado no quesito amor — me faz fazer um exercício de desbloqueio.
Talvez a culpa (culpa deliciosíssima) seja de eu ter me tornado um pouco melhor com as garotas e de ter conhecido a Americanina: uma bissexual de vinte e um anos super flexível com uma história difícil.
O fato é que, pela primeira vez, perco a cabeça, o controle e a compostura por um casinho de pouco menos de um mês.
Com esforço me recupero, mas não sou mais o mesmo de antes: é como quando o Ted Mosby descobre o bacon pela primeira vez aos trinta anos… não consegue mais viver sem. Não que eu procure ativamente, simplesmente, quando estou sozinho, sinto uma estranha e nova ansiedade. Uma falta da qual não entendo o objeto.
E finalmente ela chega… a minha ex histórica.

@ Waldemar van Kazak
Olho nos olhos dela: é o perigo em pessoa. Belíssima, Deusa do Sexo como nenhuma outra depois dela, encarnação de transgressão e liberdade. Inteligente. Sensível. Divertida. Com toda a experiência em relacionamentos que eu nunca tive. Com as mesmas neuras que eu. Uma menina para salvar de si mesma. Uma cúmplice na experimentação de formas diferentes de viver a vida. Minha pequena para amar e preencher.
Só existe um jeito de tê-la: amá-la sem freios.
Amar a minha ex histórica é como se jogar no fogo, coberto de gasolina. Significa renunciar a toda segurança, tranquilidade e paz. Significa não saber qual tornado vai te atingir amanhã.
Significa beber feliz o veneno que vai te envenenar, esperando ressuscitar para uma nova vida após a doce morte… mas sem muitas certezas.
Até pouco tempo atrás, você acreditava ser o dono do mundo, decidindo com tranquilidade vidas e mortes (profissionais). Agora você está aqui tremendo, como um idiota, diante de um serzinho de parcos 50 quilos. Me sinto um adolescente, inexperiente em relacionamentos e na vida.
Foram 5 anos grandiosos. E terríveis.
5 anos em que alcancei os picos mais elevados de felicidade. E os abismos mais profundos.
5 anos que finalmente expressaram uma parte de mim que eu nem sabia que tinha. E me deixaram transtornos pós-traumáticos, como os de quem voltava do Vietnã.
Há muitas coisas que eu gostaria de esquecer. Mas algumas que espero lembrar para sempre:
- A felicidade incrível. Eu era tão feliz que me vi rezando a Deus: “Te peço, nunca me tira essa coisa tão linda! Não deixa acabar. Faz durar para sempre!” E eu sou ateu…
- Quando fiz a rodada das garotas com quem eu saía para terminar com elas. E disse à minha ex histórica: “Tu faz o que quiser, eu de agora em diante só vejo você!” Tão forte era a atração por ela que eu não conseguia mais sentir prazer, não só com outras mulheres, mas… nem com pornô!
- Ser olhado como se eu fosse a coisa mais lindado mundo. Por vários motivos, tenho uma necessidade profunda de ser realmente visto. Minha ex histórica me olhava e amava em mim não só as qualidades, mas também os meus defeitos.
- A incrível, interminável sintonia sexual: 5, 6, 7 vezes por dia, todos os dias, por três anos!
- A primeira vez que conseguimos “fazer amor”: Propus a enésima fantasia, ela me olhou, totalmente perdida no amor, e me disse docemente: “Não. Só eu e tu“. Repetindo para mim com todo o amor do mundo o quanto eu era lindo, o quanto ela me amava. Fui inundado por tanto amor que paralisei: não conseguia responder com a mesma intensidade.
- As infinitas noites no sofá, conversando, cantando, dançando. A viagem mais bonita que já fiz foi naquele sofá, ao nos conhecermos. Eu queria saber tudo sobre ela.
- Aquela vez, pouco antes de ficarmos juntos, eu disse a ela: “Sou teu. Me rendo. Faz de mim o que quiseres. Pode me destruir se quiseres, não oferecerei resistência“

Claro, também tem um monte de merda que lembro bem. Coisas que nunca mais aceitarei de ninguém. Feridas abertas cujas crostas ainda doem.
Houve momentos em que, mais do que um relacionamento, parecia um martírio. E, a cada lamento, cada vez, por infinitas vezes, o Fil me repetia: “Eu te disse para escolher a TetteDolci. Você quis a X? E este é o resultado.” E eu: “Não, não, eu quero a X!”.
A garrafa vazia
Em abril, vi ir embora a pessoa em quem eu tinha feito all-in.
Me vi sendo uma garrafa vazia, incapaz de oferecer bebida a ninguém.
Hoje estou me preenchendo aos poucos, aproveitando minha vida de solteiro.
E não! Não voltaria atrás.
Jamais voltaria com a X (a quem desejo todo o bem possível). Se você estiver lendo… lembre-se de quem você é, do seu valor e não se jogue fora!
Não quereria mais uma história como a que tive. Mas também não voltaria a um relacionamento como o de quando era casado. O meu amor tem um preço tão alto que só o darei a quem for fora de série.

Estou com vontade de leveza. De repente, na playlist aparece “Le plus beau du quartier”, a música da Deusa Francesa. No fundo, eu e ela nisso agora somos um pouco mais parecidos: ambos dizemos estar dispostos a nos apaixonar, mas… na verdade, tomamos muito cuidado. Sabemos que para nós o amor tem um preço tão alto que precisa realmente valer a pena. O dela mais econômico, o meu mais emocional.
Pois é, acho que vou me empenhar na dieta e me tornar também “O mais bonito do bairro”. Quem sabe uma blogueira anônima escreverá sobre mim, chamando-me de “O deus siciliano” ahaha. Sem saber que o desejo mais profundo de cada deusa e de cada deus é… ser apenas um mortal.
Meus olhos estão marejados e evito as aeromoças que insistem em me trazer champanhe. Até a primeira classe tem seus defeitos.
PS.
Obviamente tudo o que foi dito acima não vale se fores a Bruletova ou a Zolotova…. aí me apaixono na hora e te prometo monogamia vitalícia eheh.
Então, se tens um sobrenome que termina em “ova”, vamos conversar
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